Critica: Simplesmente Acontece

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Amizade pode virar paixão? Como desencanar desse drama maldito chamado “friendzone”? Todos já se fizeram essa pergunta pelo menos uma vez e, inclusive eu, que estou apelando para um grande clichê, já que fiz essa mesma introdução outra vezes no blog. A questão é que lá fui eu atrás de mais um daqueles filmes que eu tenho quase certeza que não vou gostar, mas admito que a expectativa baixa pode fazer milagres até quando o filme insiste em se boicotar.

O filme conta a história completamente batida e piegas de Rosie e Alex. Dois britânicos que são amigos desde quando eram bem pequenos até que um simples beijo regado a tequila muda tudo. Mesmo nutrindo um amor recluso, ambos vão viver suas vidas e enfrentar muitas idas e voltas até poderem, finalmente, ficar juntos.

O roteiro de Simplesmente Acontece não consegue se adequar a regra de que comédias românticas da terra da rainha são aquelas que fogem das regras americanas. Mesmo tendo pontos positivos, o roteiro é fraco, já que se resume em repetir todos os clichês existentes na face da terra durante todas as milhares de idas e voltas que envolvem o casal. Tudo bem que o filme se passa durante 12 anos (alguém me disse que no livro são 65…), mas são tantos problemas que chega a dar pena dos dois.

É verdade que algumas dessas idas e voltas acabam gerando reviravoltas interessantes, mas a maioria é forçada e nada próximas da realidade. Não sei se isso pode ser uma consequência da diminuição do tempo da história que acaba deixando todos esses momentos muito colados. É incrível como traições são resolvidas com um soco e casamentos são terminados em um piscar de olhos, enquanto na vida real tudo isso é cercado de problemas e sofrimento. São coisas que simplesmente não acontecem fora da tela do cinema.

Mesmo assim, o filme flui bem (em parte por conta da direção) e tem alguns aspectos legais. Entrando nas regras das comédias britânicas, o filme tem alguns diálogos divertidos e um humor interessante, mesmo usando esse recurso menos do que poderia/deveria. Ainda está – e sempre estará – um pouco abaixo de clássicos ingleses do gênero, como Quatro Casamentos e um Funeral, e de longas mais recentes, como Será Que?, mas tem algo sutil que o diferencia de Encalhados, só pra usar um que eu vi recentemente como exemplo.

Mesmo com um roteiro bobinho, outra coisa que me surpreendeu é que o longa consegue ser bem mais adulto do que eu esperava. Eu realmente esperava uma história bem juvenil, mas me deparei com um filme que soube tratar de alguns temas complicados como o sexo, a gravidez inoportuna na juventude, entre outros… É aqui que digo que a expetativa baixa começou a funcionar, porque eu esperava muito menos do longa e aceitei que poderia ser legal.

Entretanto, o que me deixou ainda mais interessado foi a ótima direção do alemão Christian Ditter, que consegue balancear o uso de jogos de câmera diferentes com os clichês que ele é praticamente obrigado a usar em filmes desse tipo e melhorar o andamento do todo. O artifício que ele mais usa (sem exagerar como em Birdman) são os planos-sequências curtos e bem trabalhados. Ele não faz 20 minutos de loucuras como Alfonso Cuarón, mas cria alguns momentos onde a movimentação da câmera surpreende como na noite em que Rosie engravida ou no primeiro reencontro entre ela e Alex na casa dela.

Ele também sabe usar a edição e a direção de arte a seu favor, mas o que mais surpreende é a trilha sonora, que inclui Beyoncé Lily Allen e outros. Ela marca a passagem dos anos e ainda ajuda a contar a história do filme ao se encaixar perfeitamente em alguns momentos vividos pelos protagonistas. Além de dar ritmo ao longa, essa é uma das funções da trilha que mais me agrada.

Entretanto, é claro – como eu já disse – que Ditter teve que se sujeitar ao uso de clichês normais dos diretores desse tipo de filme, como a edição rápida e sem falas para demonstrar a passagem de tempo. Ele usa isso mais de uma vez no filme, mas eu estava aceitando suficientemente bem até ele se entregar demais. Não consigo entender como um trabalho tão quase é perdido por causa de uma cena extremamente clichê lá bem no final do filme. O final é óbvio e por isso mesmo o diretor podia ter dado um jeito de quebrar um pouco isso e não ampliar a obviedade a ponto do público falar o que vai acontecer quase 1 minuto antes de acontecer.

Pelo menos, se tem uma coisa que é inegável é que a química do casal principal consegue segurar o filme, enquanto o diretor erra lá no finalzinho e o roteiro desliza entre o bobo e interessante. Lily Collins teve um bom começo de carreira em Um Sonho Possível, mas fez muita coisa caricata demais depois disso. Eu realmente achei que esse filme deixou a atriz mais leve para atuar, deixando ela mais bonita do que em qualquer outro papel. E, principalmente, ela funciona com Sam Claflin, que não errou tanto quanto Lily na curta carreira, mesmo não sendo um ator excepcional.

A questão é que só os dois funcionam e só os dois são minimamente desenvolvidos. Isso acaba dando ao longa um tom um pouco maniqueísta quando o roteiro coloca Alex e Rose como pessoas que sofreram a vida inteira por acharem que não eram correspondidos, enquanto Greg e Bethany  são meras pedras no caminho, são meros vilões caricatos que pouco adicionam ao filme enquanto aparecem e somem sem nenhum anúncio ou preparação. Esse é o tipo de clichê que muitos filmes tem conseguido fugir atualmente, mas a roteirista Julietta Towhidi não se importa com isso e atrapalha o filme.

Um filme bem dirigido e um pouco divertido, ma que poderia ser bem melhor se o roteiro não se esforçasse para ser o mais clichê possível. Eu entendo que algumas coisas nunca serão mudadas nessas comédias românticas, mas a escolha de usar todos o recursos conhecidos é idiota e prejudica o filme. A expectativa baixa e, principalmente, a direção me fizeram gostar do filme durante quase toda a projeção, mas quando eu parei para analisar o que vi, quase tudo soou mais fraco do que deveria ser. Ainda recomendo pra quem gosta do gênero, mas digo que poderia ser muito melhor.

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