Critica: Perdido em Marte

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O mundo não está nos seus melhores dias com guerras civis destruindo países, ameaças de terceira guerra mundial e, especialmente para nós, brasileiros, uma crise econômica um tanto quanto preocupante. E é exatamente esse mundo que as últimas ficções científicas, sendo o gênero cinematográfico que melhor traduz a nossa realidade, tem procurado mostrar. Entretanto, depois de tantos apocalipses, monstros e revoluções de robôs, esse Perdido em Marte surge como um belíssimo frescor de otimismo para o gênero e para Ridley Scott.

O longa, adaptado de um romance escrito por Andy Weir, conta a história de Mark Watney, um astronauta que é dado como morto e abandonado em Marte durante uma tempestade gigantesca em Marte. A questão é que ele não estava morto e precisa sobreviver através da ciência e da sua própria superação, enquanto vários cientistas em terra tentam construir uma missão para resgatá-lo do planeta vermelho.

A adaptação do livro é feita por Drew Goddard, que já trabalhou com várias metáforas do tipo em Cloverfield e Guerra Mundial Z, faz uma adaptação muita boa (segundo quem já leu o livro), constrói o filme de maneira muito bem balanceada e ainda usa esse otimismo do personagem para deixar o filme, ao contrário do que eu esperava, bem engraçado. Mas esse não é tom durante todo o longa, já que tanto a comédia, que não chega nem perto de ser exagerada ou caricata, quanto o drama e a tensão tem sua função e entram na hora certa para que os 141 minutos de filme não fiquem nem um pouco cansativos.

E ainda tem duas coisas que me chamaram muita atenção – positivamente – no roteiro de Goddard. Em primeiro lugar vem o bom uso da ciência na resolução dos problemas em Marte e a colaboração da Nasa para deixar o filme o mais próximo da nossa realidade. E em segundo lugar é a certeira apresentação dessa grande dose de conteúdo científico sem apelar para o didatismo exagerado. Calma que isso não quer dizer que o espectador também fica perdido no filme porque todas as explicações importantes estão lá, mas – ao contrário do que Christopher Nolan fez em Interestelar – elas são bem mais sutis e disfarçadas através de uma espécie de vlog que o protagonista usa para registrar suas ações e se comunicar com a Terra.

A direção do longa fica por conta de Ridley Scott, um diretor que não precisa mais comprovar sua experiência com ficções científicas depois de dirigir clássicos com Alien e Blade Runner, mas que estava precisando de um grande filme para mostrar toda a sua capacidade e voltar as trilhos depois de alguns longas questionáveis. E pode ser até um pouco irônico ver ele encontrar essa redenção em um filme que trabalha com uma leveza e com um otimismo que são bem incomuns nos seus filmes de todos os gêneros.

Mesmo assim ele segue muito bem a ideia por trás do roteiro e consegue transmitir, através de alguns ângulos diferenciados e boas metáforas visuais, todas as nuances dramáticas, cômicas e tensas. Nesse aspecto o destaque fica para o ótimo clímax que ignora a certeza do público de que o resgate de Mark vai ser um sucesso e consegue trabalhar a imensidão do espaço de uma maneira que deixa qualquer espectador completamente tenso e preso na beirada da poltrona.

Ainda temos muitos outros acertos na belíssima parte visual do longa que é muito bem traduzida pelo cenário bem escolhido (o filme foi gravado quase todo na Jordânia), pela fotografia espetacularmente alaranjada de Darius Wolski e pela perfeita direção de arte de Arthur Max. Isso sem contar a genial trilha sonora que, além de virar piada durante o filme, pontua muito bem algumas cenas e cria metáforas sonoras quando coloca Starman, de David Bowie, para tocar em um dos momentos importantes do filme e quando escolhe I Will Survive para encerrar o filme.

E para completar o filme ainda tem um elenco de primeiro escalão, comandado por um ótimo Matt Damon. O ator, que não tem grande fama de ser carismático, domina o filme, passa todo o senso de otimismo que o roteiro pedia e conquista o público com as divertidas caras e bocas de Mark. Tudo bem que eu senti falta de uma explosão dramática que mostrasse o quão problemática era sua situação, mas isso não tira nem um pouco da qualidade e do frescor da atuação de Damon.

O elenco coadjuvante, tão grande e cheio de estrelas quanto o de Everest, é formado por Jessica Chastain (sempre linda), Jeff Daniels, Sean Bean, Michael Peña, Sebastian Stan, Kate Mara, Donald Glover, Mackenzie Davis, Aksel Hennie, Kristen Wiig, Benedict Wong e Chiwetel Ejiofor. São todos bons atores que cumprem seu papel, mas, apesar de todos eles terem alguma cena para brilhar, a impressão geral que fica é de que muitos talentos foram desperdiçados.

Entretanto, esse pode ser considerado o único problema de um filme que acerta em todos os outros aspectos. Perdido em Marte ganha muitos pontos por ter um ótimo roteiro, uma atuação sensacional de Matt Damon, uma trilha sonora tão interessante quanto a de Guardiões da Galáxia e uma forte mensagem de otimismo para um mundo tão caótico. E mesmo com todos esses acertos, a melhor coisa é saber que Ridley Scott voltou os trilhos e tem muita lenha para queimar no auge dos seus 78 anos.

OBS 1: Se a tal explosão dramática existisse, Matt Damon com certeza teria boas chances de ser indicado ao Oscar.

OBS 2: O longa ainda acerta em cheio e conquista o público com boas referências à cultura pop, incluindo Senhor dos Anéis (em uma cena genial com Sean Bean) e Homem de Ferro.

OBS 3: Preciso dizer que depois de fazer alguns clássicos (Gladiador, Thelma e Louise, Alien, Blade Runner e Até o Limite da Honra) e dirigir bombas gigantescas (Prometheus, Cruzada e Robin Hood), esse é, na minha opinião, o melhor filme de Ridley Scott desde Hannibal (2001).

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4 pensamentos sobre “Critica: Perdido em Marte

  1. […] o bom humor e nem se abala com nenhum problema. Inclusive algumas criticas ao filme (incluindo a minha) apontavam que faltou um pouco de explosão dramática na atuação sempre sorridente e leve de […]

  2. […] uma espécie de náufrago espacial. Curiosamente, uma história muito parecida com a do livro e do filme Perdido em Marte, que já foram assunto por […]

  3. […] diretor de Perdido em Marte coroou seu retorno ao mundo das ficções científicas com o prêmio de Melhor Filme – […]

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